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domingo, 10 de janeiro de 2021

Conspirações

Ficámos então a saber, de fonte segura. que há uns marmanjos no PSD que conspiram contra a Pátria. Não é contra o 1º ministro. Não é contra o governo. É contra a sagrada pátria. A nossa fonte é o primeiro ministro, pois claro. Qual terá sido a fonte do primeiro ministro? Os benditos e patrióticos serviços de segurança? Seguramente. Há uns anos, um dos então membros deste iluminado serviço da República, deslocava-se a Roma para trocar informações, ao que constou. Bom. Desta vez o agente só teve de fazer mais um pequeno desvio até Florença para detectar as reuniões conspiratórias, que certamente decorreram no Instituto Universitário Europeu. É por onde o Poiares Maduro costuma andar, não é? Desqualificamos o escritório do Rangel ou o gabinete do Baptista Leite, porque ficam aqui nesta Lisboa tão linda, agora enregelada. Seria tudo muito perto. Que conspiradores seriam se conspirassem na santa terrinha? Conspiradores que se prezam e queiram ficar para a história elegem a sede conspiratória no estrangeiro. Que lugar mais indicado nos tempos de hoje, senão Itália? Só daí se poderia influenciar o mundo, como é bom de ver. Demonstrar ao planeta as petas  que a ministra da Justiça disse ao Conselho Europeu sobre o curriculum do Guerra, ou melhor, sobre as simples lapsos da carta que menciona o curriculum do procurador. Simples lapsos. Irrelevantes politicamente. A ministra que troca o DIAP pelo DCIAP foi e  é procuradora. O DCIAP foi criado há bem mais de 20 anos exactamente para investigar os mais graves crimes ditos de colarinho branco. Terá passado à margem da Ministra? Ou ela não gosta do DCIAP? A questão é polémica, como é sabido. A ministra tem o direito de não gostar e exprimi-lo ainda que de forma enviesada na carta para o órgão da UE. Como não gosta, nada mais natural que para lá empurre o seu eleito procurador-boy. À contrario sensu, claro está. De repente veio-lhe à memória a fraude dita da UGT com os fundos europeus para a formação. Este processo deu em nada como é sabido. Mas teve ruído. Logo, o Guerra deveria ser apontado como o homem que o investigou. Enfim, a cartinha tem o mérito de ser curta, é verdade, mas toda ela aldrabada. Perdão, lapsada. Ou será prolapsada? Talvez apenas prolepsada. Que tal? O propósito da missiva é proléptico, claramente. Antecipava objecções do conselho e dos imaginados conspiradores. Quem julgam eles que são? Quem os autorizou a criticar posições da Ministra da Justiça cujas dores são íntimas do nossa primeiro? Quando o concurso nacional já fora uma aldrabice, a que propósito o insignificante juri europeu se atreveu a ajuizar de forma diferente? Aldrabice atrás de aldrabice vem, como diz o povo. Esta é a nova estrutura filosofal de nomes insignes como o Trump das américas e o Bolsonaro das mesmas mas latina. Ah! Baixemos a guarda. Nada de vaidades europeias. E o Johnson do brexit? E o Órban da bazuca?  Tanti quanti.
Fake news Dr. Costa, fake news. A sua máquina de propaganda fará bem melhor do que a trupe amadora do PSD. Em última instância, lance a notícia como fez com as presidenciais. Da auto-europa ou de qualquer outro lado. Utilize o Senhor presidente. Tem feito tantos fretes ao governo que não lhe negará mais um. Vai uma aposta?


 

sábado, 19 de dezembro de 2020

Pandilha

Nove meses após a tortura e assassinato do Ucraniano Ihur Homeniuk, o país despertou para um este crime execrável após a divulgação de uma humilde entrevista com a viúva. Sabia-se há meses que 3 esbirros, representando o Estado Português, torturaram até à morte este cidadão ucraniano. Mas os responsáveis, políticos e hierarquia, assobiaram para o lado. Primeiro, na esperança de que o seu silêncio arrastasse esquecimento, como é costume acontecer neste sítio  mal frequentado. Cada vez mais. Quando o País despertou, foi um ver se te avias: a mais patética retórica, as mentiras e desculpas mais destemperadas e ridículas, enfim, os costumeiros insultos à inteligência dos portugueses. Retemos três pequenos episódios. (i) O Senhor Presidente da República dizendo que haveria que tomar medidas se, após investigação, se concluísse que o "caso" não era único mas habitual. Como este inquilino de Belém afirma despudoradamente de há anos para cá: apurar tudo, doa a quem doer, para que nada seja verdadeiramente apurado.(ii) O Senhor ministro da administração interna numa inacreditável conferência de imprensa a dar as boas vindas aos jornalistas à luta pela defesa dos direitos humanos. (iii) O senhor primeiro ministro, como habitualmente, a manter inteira confiança política no ministro da administração interna. Fá-lo sistematicamente, porque neste manso e abúlico país, não se pedem responsabilidades políticas a ninguém. Os últimos anos bem o demonstram: incêndios, golas contra incêndios, roubo de material de guerra, transferência de património para sociedades criadas um dia antes da tomada de posse, enfim, poderíamos passar o dia a enumerar. Para nós, que não devemos nem temos qualquer tipo de temor reverencial pelos cipaios do PS, o caso do infeliz Ihur, após ter observado a figura do ministro nas últimas duas semanas, traz-nos à memória o título de um filme: feios, porcos e maus.
Claro que é indispensável tentar compor o ramalhete. Agora, só agora se demitiu a directora do SEF para ir ocupar- ao que dizem-um lugar bem pago na embaixada em Londres. Em sua substituição, o dito ministro acaba de nomear um general da GNR já na reserva. Na GNR, onde esteve durante 2 anos e, segundo parece, não deixou saudades. É a segunda nomeação do mesmo senhor por este ministro parco em conhecimentos. Ou será em obediência? O PSP Magina não ficou bem na fotografia. Mas teve coragem. Viv'ó Magina, porra. Atenção Magina. Quem se mete com o PS leva. Memória futura: Magina era o sítio em Angola, no distrito de São Salvador, mais perigoso  para o batalhão sedeado em Cuimba. E aí morreram, numa emboscada, quase todos os soldados do alferes Alves, da Companhia da Calambata. Há associações com  significado.
Enfim, neste lembrete, ocorre-nos ainda, desta pandilha: TAP, a inverosímel privatização com a qual os portugueses esbracejam e o Neeleman goza, o propalado milagre português no início da pandemia; o repugnante ministro holandês que só gostaria de saber porque é que alguns países estão sempre de tanga quando surgem as crises e entendem que toda a UE deve ser responsável pelos seus desmandos.; o desconhecimento despudorado de todos os responsáveis pela farsa de Tancos. O chega p´ra lá da PGR e a nomeação da actual, bem como o do presidente do Tribunal de contas. E muito muito mais. Por isso, pouco chega aos Tribunais. E o que chega fica a marinar. A operação Marquês é paradigmática. E começo a acreditar que ficará tudo em águas de bacalhau. Pois é. Bacalhau: esse amigo que não dispensamos na consoada. Infelizmente, com estes amigos da onça, perdão do povo, muitos talvez o não possam  ver nesta quadra. Até quando o país continuará a descer económica e socialmente? Até quando perdurará a máquina de propaganda  e a incompetência dos pandilheiros?
Boas Festas. 
 

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Bater no Ceguinho



Há coisas do arco da velha! O Senhor Presidente esteve no Algarve, de novo. Parece que o Reino dos Algarves se tornou palco para início de comédias orquestradas. Desta vez decidiu criticar a DGS por não ter divulgado ainda as regras para a festa do Avante. Vejam bem. A cinco dias de tamanho evento. Com candura notável, este departamento da administração pública veio logo obedecer e desobedecer ao Senhor Presidente. Questão multifacetada e difícil. Mas é o promotor -em posse do parecer desde a tarde de ontem - que deveria divulgar, caso entendesse. Rio cai na esparrela, e desanca também candidamente na DGS. Vai daí, o PM António Costa, em jornada partidária, mostrou quem é que manda: de corneta desimpedida disse que o parecer seria divulgado de imediato.
Espantoso. Verdadeiramente espantoso. Costa é hábil, diz-se. com a ajuda simulada do presidente. e ainda...com a inabilidade política do Rui Rio e da restante oposição. Esclarecimento: o bloco não é oposição. morde na maçã. O PCP é interessado directo e partilha há muito a dissimulação. Ninguém perguntou ao Senhor Presidente, a que propósito decide criticar um departamento do Estado. Estará este departamento em auto-gestão? Faz algum sentido o Senhor Presidente queixar-se de desconhecimento? Porque não perguntou ao PM Costa com quem é suposto reunir às quintas-feiras?  E a Ministra da Saúde? E o Secretário de Estado?
É patético que o Presidente da república critique departamentos e técnicos quando pode e deve pedir responsabilidades políticas. Ora a DGS não deve fazer política. Há eleitos para assumirem essa responsabilidade. Será que o Senhor Presidente desconhece regras elementares da vivência democrática? Regras elementares da organização do estado? Não, não desconhece, obviamente. Logo, foi uma dissimulação e uma jogada. Rui Rio caíu na esparrela. Parece que essa é a sua única habilidade. Não criticou o PM; não criticou a ministra. Não criticou nenhum responsável político, como deveria fazer. Perdeu mais uma oportunidade e deu ocasião a que o Costa "brilhasse". Assim se enganam os tolos. Como tantas vezes tem acontecido, as teias, ainda que patéticas, dos actuais detentores do poder, os seus conluios, enganam o povinho, porque até a oposição se deixa enganar. Ou será que participa nos enredos? É o que parece. Não vamos longe. Espera-nos a cepa torta nas esquinas que se seguem. Como dizia o outro: é a vida.

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Pusilaminidades

 


                                                         

E pronto.Costa falou em off. Para chamar cobardes aos médicos que, alegadamente, não foram para o Lar de Reguengos de Monsaraz, por ordens do Director da ARSAlentejo. Costa é aquele PM  esforçadamente educado em on e descaradamente mal-criado em off.  Ou será o inverso? Se olharmos bem à nossa volta, talvez possamos concluir que este PM esteve sempre em modo off. Ou em on. Para nós tanto dá. Porque o homem não tem meias palavras. Quando insulta é a valer. Lembremos o repugnante  que chamou ao ministro holandês quando, de mão estendida, pretendia beneficiar dos dinheiritos da UE. Empréstimos não, não não, que a nossa dívida já é grande. Que todos se endividem agora para alimentar as cigarras. Dito assim é outra loiça, menos repugnante, naturalmente. Estaria em off o António Costa? Cobardias à parte, lá foi o Dr. Guimarães para uma conversazita de desagravo. Docilmente desagravado até esqueceu que em on ( ou seria em off?) o ex-agravador negou à corporação que o senhor dr. representa capacidade para fiscalizar o Estado. Tal e qual. O Costa tem tendências para a megalomania. O Estado não se fiscaliza. Digo eu. Fiscaliza-se o Governo e demais instituições, públicas ou privadas que integram o Estado. É típico de gente de pulso confundir o governo com o Estado. Era assim na União Soviética e continua a ser assim nas leprosos sucedâneos que restam por esse mundo fora. Poucos. Cada vez menos. Filhos adormecidos no ventre materno. Entre nós têm o Costa & Cª no bolso, quod erat demonstrandum. Foi o 25 de abril, o 1º de maio e será o avante, contra todas as ondas de reaccionários. Na URSS já era assim. A lei é para o povoléu indiscriminado e não para o apparatchik.
Reino Unido
Nesta farsa do juiz da beira, não é fácil caracterizar as personagens.O Senhor Presidente, entre feitos de salvamento algarvio lá foi repetindo que os nossos  mais velhos aliados tinham finalmente corrigido o agravo e a tremenda injustiça de não abrir o corredor aéreo logo em Junho. Quando queríamos e nos dava jeito. Enfim, vale mais tarde do que nunca! Agora, ah! agora até mudou a ordem das estações do ano. O verão chega a Novembro, pois então. Na farsa, como ficou dito, carpiu a injustiça e a estúpida falta de critérios decentes também o António. Que diga o António. Mas, verdadeiramente paradigmático foi o malhador Santos Silva. No início, foi a ameaça de vendetta, retaliação. Esses estúpidos, esses ingratos! Quando passámos para o corredor, não foi qualquer acto de lucidez ou de rigor do UK. Foi a demonstração da excelênca do nosso serviço nacional de saúde. Sem mais. O Homem assim o disse.
O que virá ainda? Tudo. Porque este (des) governo não faz. Vai fazer. Já estamos a preparar-nos para a 2ª vaga do covid. Exactamente como fizemos com os incêndios de 2017. Então, agora e sempre será tudo apurado, doa a quem doer. E os responsáveis serão exemplarmente punidos. Vai uma aposta?

sábado, 20 de junho de 2020

Fanfarronadas


A notícia é recente mas já ecoa pelas chamadas redes sociais. É digna dessa honra. O Senhor Ministro dos Negócios Estrangeiros Português, de seu nome Augusto Santos Silva, mostrou-se agastado, irritado e pronto para a luta  a propósito de dez países europeus impedirem ou condicionarem a entrada de portugueses, uma vez abertas as suas fronteiras. Também li a notícia. No dia seguinte ao foguetório pelo facto de os jogos finais da champions se realizarem em Lisboa e, talvez, Porto e Guimarães. Também isto teve honras de discursos laudatórios em Belém. O costume, com a inevitável ênfase presidencial a que seguramente se seguirá, dentro de pouco tempo, uma condecoração. Já há uns tempos o Senhor ministro levantara a crista ao espanhol Sanchez quando este anunciou a intenção de abrir a fronteira com Portugal no dia 21 de Junho. Parece que a questão agora se inverteu. Quem manda nas fronteiras portuguesas é o governo de Portugal, dizia então. Sem qualquer dúvida Senhor Ministro.  Enfim, o senhor ministro admitiu mesmo a hipótese de retaliar contra esses ingratos que não reconhecem o milagre português no combate á pandemia. Também li a notícia. Paradigma daquilo que se passa neste passeio alegre à beira mar plantado. Face à catástrofe económica resultante de medidas com pouca ponderação e racionalidade, algumas delas, o governo abre o país à espera que o turismo faça desabrochar as rosas do esperado milagre. Outro milagre porque somos terreno fértil. Simultaneamente, o primeiro ministro Costa alude ao prazer de um Algarve sem enchentes - que experimentou - para apelar aos turistas nacionais, presumo. E diz também  que os jogos europeus representam um merecido prémio para os profissionais da saúde (!) Assim. Exemplo de contenção e rigor. Como se espera de um primeiro ministro. Sempre que algum facto ou fantasia reconhece ou sugere uma participação meritória de um português, o foguetório e gabarolice enchem o ego nacional. Os feitos colectivos são vitórias festejadas e guardadas na memória dos tempos. Estes governantes - ao que parece - precisam de constantes compensações de uma pequenez que entristece. Quando a realidade não nos beneficia, valemo-mo-nos até de hipotéticas retaliações. E testamos. Somos aqueles que mais testamos alegam agora. Por isso, os números menos favoráveis de novos contágios. Nisso rivalizamos com o Senhor Trump. Em retórica barata, quero dizer. Se não testarmos, acabamos com o vírus. Qual é a dúvida?
O senhor não dirigiu a retaliação aos países que duvidaram ou duvidam do milagre português. Até porque os milagres não se analisam  por um único critério, como agora se afirma. A hipotética retaliação é dirigida ao ego dos patriotas. Ou será também aos filhos do embaixador do Iraque?
Este Ministro gosta de malhar na direita. Consabidamente. Esperemos que não se afeiçoe a malhar na Dinamarca, na Áustria e nos restantes inimigos figadais da bravura lusitana.

quinta-feira, 11 de junho de 2020

A pandemia do medo

Demitiu-se o ministro das Finanças Mário Centeno. Melhor: foi exonerado a seu pedido, conforme divulgação oficial. Com muitos encómios de várias latitudes. Por alguma razão dirigiu o chamado Eurogrupo, diz-se. Sou céptico relativamente à personagem. E nem sempre os cargos e funções na UE implicam grande competência, caracter e hombridade. Mas enfim. Que diminuíu os sistemáticos déficits nacionais, é inegável. Que se vangloriou de primeiro saldo positivo da democracia, não há qualquer dúvida. Aí fez coro com o primeiro ministro - naturalmente - e até com o Presidente da República. Naturalmente. Porque o inquilino de Belém faz coro com tudo e todos que ajudem a sublimar~lhe o ego. Outros dizem que o controlo das contas públicas se deve a vários truques contabilísticos, entre os quais as célebres e propaladas cativações.  E acrescentam já que tais cativações são da autoria "genial" do seu sucessor até aqui secretário de estado do orçamento. As cativações, da autoria de um ou dos dois, traduziram-se num verdadeiro desinvestimento em serviços públicos essenciais, como a saúde e a educação. A memória dos homens é curta. Há quatro meses, a situação era uma evidência. A pandemia tornou tudo muito distante. Todavia, o medo instigado por medidas avulsas, pouco coerentes e que dificilmente poderão ser revertidas - como se verá, infelizmente - ficam a dever-se apenas ao medo dos responsáveis pelo colapso do serviço nacional de saúde. Foi tudo para o COVID-19. Eu próprio experienciei esta triste realidade uma noite na urgência do Hospital de Évora. Há uma semana, um cardiologista do Hospital de Santa Maria confirmava-me esta mesma situação. O SNS colapsou mesmo, apesar dos mantos pouco diáfanos com que envolvem a realidade. Colapsou desnecessariamente, talvez. Dizia o cardiologista que, durante dois meses não houve doentes com problemas coronários graves, designadamente AVC's ou enfartes do miocárdio.  - Morreram em casa- afirmou. Não de coronavirus mas devido ao coronavirus. Devido ao medo que governantes impreparados mas arrogantes, instalaram numa população incauta e amestrada, pronta a prestar vassalagem a quem lhe retirou todas as liberdades. Até a liberdade de pensamento. Começamos a assistir à divulgação pelos meios de comunicação social desta sensação de pusilanimidade colectiva que tolheu e continua a tolher este pobre país incapaz de discernir a tempo a verdade no meio dos discursos inconsequentes que quotidianamente são derramados sobre o seu entendimento. Grave, verdadeiramente grave é o vírus do medo. Esta pandemia levará gerações a debelar. Não digo vencer. Apenas debelar. É triste, muito triste, verificar que gente jovem acata servilmente discursos medíocres que lhe roubam os mais elementares direitos e liberdades, instalando o medo e invocando despudoradamente o "direito à saúde." É triste, muito triste ver uma grande parte da população bater palmas a quem  nos tratou e trata como crianças ou como débeis mentais. Enfim, demitiu-se o Ministro das Finanças. Parece que foi uma exoneração anunciada desde que revelou ou teve de revelar que o Senhor Primeiro Ministro mentira quando afirmara no Parlamento  nada saber sobre mais uma transferência de 850 milhões de euros para o Novo Banco. Trata-se de uma costumeira apetência do senhor primeiro ministro. Nunca sabe nada. Não foi assim no caso Tancos? Não soube, não sabia, não sabe de nada. Como se a ignorância desculpabilizasse um governante que tinha e tem a obrigação de saber. Valha-nos Santo António, com sardinhas socialmente distanciadas. Vejam bem. 

sábado, 11 de abril de 2020

Aposta ganha

No último texto desafiava Rui Tavares -melhor os leitores - para uma aposta. Ei-la: os países do sul da Europa - os nove países  que pediam os Eurobonds- nunca tomariam a iniciativa de uma "colaboração reforçada" para criarem os desejados eurobonds. Isto surgiu na sequência de um texto narcísico e claramente "fora da realidade" do mencionado Rui Tavares que ordenava a esses países algo que já há 8 anos ensinara aos seus leitores, -dizia-. Vejam bem: "Com Alemanha ou sem avancem com os Eurobonds".  O Senhor eurodeputado aprendeu pouco durante o seu mandato no Parlamento Europeu. Como se demonstra. A verdade é os países do sul da Europa - assim decidiram intitular-se-não querem assumir responsabilidades. Querem ter a possibilidade de responsabilizar todos os outros pela sua apetência pelo endividamento irresponsável e a as mais das vezes eleitoralista. Ontem ficámos a saber que a proposta do Eurogrupo é mais pragmática: traduz-se num pacote de apoio no montante de 540 mil milhões de euros, repartido por várias linhas: apoio directo ao emprego, às empresas, aos Estados, sem quaisquer condições desde que os montantes sejam para a saúde ou para minimizar consequências da Covid-19. Os Estados podem pedir até 2% do seu PIB. A isto juntam-se os 750mm que o BCE se dispõe a utilizar para comprar, em condições muito favoráveis, toda a dívida que os Estados emitam. Muito há mais e muito importante, como se sabe: a Comissão já anulara todas as limitações orçamentais, designadamente a chamada regra dos 3% para o endividamento. Já abolira ou flexibilizara as regras de proibição de ajudas dos Estados. No caso Português, e por diversas vias, considerou justificadas ajudas no montante de 13mmilhões. Ora, aquilo que o estado Português anunciou foi estimado pelos responsáveis em 9mmilhões. Claro que vai ser mais. Mas enfim, os rapazes do Governo são aqueles que dispõem dos instrumentos para contabilizarem isso. Enfim. Não houve nem haverá Eurobonds. Os nove Estados que são necessários para a iniciativa não avançam, porque não querem avançar, sem os grandes contribuinte líquidos, designadamente a Alemanha. De resto, ponderemos. A UE não se configura como um Estado. Não tem varinhas do condão para inventar dinheiro. A UE, por enquanto, é apenas o conjunto de 27 Estados com algumas políticas comuns. As politicas da saúde, como as da educação têm alguns pormenores comuns. Nem sequer podemos considerá-las políticas comuns, ao contrário do que sucede com a Agricultura e com o Comércio, em particular as regras da concorrência. Nem nos Estados Federais ( como os USA) existem regras de endividamento comum. Nem em Portugal, se considerarmos apenas as Regiões Autónomas e as Autarquias locais. Todos sabemos que o Governo Central impôs limites ao endividamento dessas entidades. Que agora também aliviou, ao que parece. Em suma, se na UE há e sempre houve países cujas contribuições são superiores àquilo que recebem e o inverso, é justo que se fale de falta de solidariedade? Considerando todos os montantes e mecanismos anteriormente referidos, bem como o que a Comissão perspectiva para o Orçamento Comunitário nos próximos anos, é sensato que se apregoe a falta de solidariedade europeia? Quem sistematicamente enche a boca com ameaças expressas ou implícitas em tiradas pouco ponderadas, para não dizer grosseiras, está a fazer muito mal à UE. É ver como se diliciam todos aqueles que dela não gostam. É ver como se empertigam todos os nacionalismos e populismos perante as parangonas dos detractores da UE. 
Claro que foi uma aposta ganha. Mas sem grande mérito.

segunda-feira, 30 de março de 2020

Vai uma aposta?

Em Novembro de 2013, assisti a uma conferência e debate em Bruxelas, promovida pela Comissão da UE com o tema Assises de la Justice. Era comissária da Justiça e vice-presidente a Luxemburguesa Vivianne Reding. Rui Tavares era então euro-deputado e foi um dos oradores no segundo dia da conferência. Para não ser desagradável, direi apenas que senti algum constrangimento com a falta de qualidade e de arrojo do Senhor euro-deputado. Mas senti o mesmo com a intervenção da convidada Paula Teixeira da Cruz, então Ministra da Justiça de Portugal. Estas duas intervenções foram medíocres, banais, sem fôlego ou arrojo, ao contrário de muitas outras e particularmente das de Vivianne Reding que aí confirmou plenamente  a sua lucidez e tenacidade insistindo que a Europa precisava de quem pensasse e agisse "fora da caixa". 
Curiosamente, o ex-eurodeputado Tavares, a quem devemos o conhecido fenómeno Joacine escreveu um artigo no Público do dia 27 intitulado Com Alemanha ou sem, avancem com os Eurobonds. Aqui está um conselho em jeito de comando determinado e audaz. Não resisto a transcrever os dois primeiros parágrafos:
"Desde 2012 que os leitores desta crónica sabem uma coisa: não precisamos da Alemanha para emitir eurobonds- títulos de dívida comum a vários países da zona euro. Ontem, os leitores do colunista Wolfgang Munchau, do Finantial Times, também o ficaram a saber. Pode ser que agora os eurocéticos portugueses comecem a prestar atenção.
" Como se sabe, os países da zona euro têm uma moeda comum mas têm dívidas separadas. Isto torna o euro uma bizarria face a moedas como o dolar, e a zona euro uma bizarria face a outras uniões monetárias como os EUA". 
UFF! É extraordinário. Sem pretensões "estruturalistas", aí vai: os leitores do Senhor Tavares sabem coisas desde 2012 que os do Financial Times, designadamente, só agora souberam. Não é fantástico?  O facto de o euro ser comum a muitos Estados da UE é uma bizarria, face a moedas como o dólar e a a zona euro uma bizarria face a outras uniões monetárias como os EUA. Extraordinário! Ó Senhor Tavares, os EUA são um Estado Federal, uma união política, como a Alemanha e tantas outras. Não são uma união monetária. Não seria bom ler alguma coisa sobre a teoria da integração, Senhor Tavares? O que fez durante o seu mandato europeu? Já agora: olhe que o dólar é nome de moeda de vários estados soberanos. Já ouviu falar do Canadá e do dólar canadiano?
Vamos ao que importa. Descontando as embrulhadas do citado "colunista"o artigo apanha a embalagem da oportunista e propalada "desintegração" do último Conselho Europeu. Os tais nove Estados que querem os eurobonds aproveitaram a epidemia coronavirus para divulgarem a título de ameaça: (i) ou se mutualizava a dívida com os eurobonds ou (ii) eles batiam à porta da desintegração europeia. Celebrizou-se uma expressão muito democrática e muito educada, - como é costume, -  do António Costa: repugnate, (o discurso ou posição do Ministro Holandês das Finanças); Não temos disponibilidade para ouvirmos ministros das Finanças Holandeses. (Alusão a Joroen Dijsselbloem), seu compadre socialista e antecessor do mago Centeno no chamado eurogrupo). A UE tem as costas largas. Nada faz quando deveria agir rapidamente e em comum. Pelo que nos parece, a Senhora Merkl, para esta mesma gente, reincarnou o papel do diabo depois de ter assumido, com a questão dos refugiados- e não só- o papel de estadista/mutter generosa, determinada e simpática.
Declaração de interesses: sou europeista e federalista. Logo, gostaria que a UE caminhasse para uma União Política. Mas está muito longe de "mutualizar" a maioria das suas políticas! O euro não é sequer comum a todos os países membros da UE.
A UE nada faz? Então os empréstimos que resgataram vários países membros, designadamente Portugal, nada foram? Nada são? Então a actual disponibilidade do Banco Central Europeu para comprar privilegiada e ilimitadamente toda a dívida emitida pelos estados membros não é nada? Os 750mil milhões de euros  de apoio disponibilizados pela UE não são nada? A eliminação de limites orçamentais e até de regras de concorrência não é nada? Poderíamos ir mais longe? É verdade. Poderíamos. Mas não deveremos esquecer que à UE, no estado de integração em que se encontra, compete-lhe sobretudo coordenar as politicas dos estados membros. A capacidade de decisão dos órgãos verdadeiramente comunitários ( Comissão e Parlamento) é limitada, naturalmente. O Conselho, como do nome resulta, é o órgão colectivo de todos os estados membros. Logo, deve-se a todos a decisão, porque assim entenderam. No último Conselho nove Estados mostraram-se favoráveis à mutualização da dívida. Mas os estados membros são 27. Em democracia há maiorias e minorias.  Neste caso, como é sabido, o Conselho delibera até por unanimidade. Não podemos ser democratas apenas quando os outros concordam connosco, como é habitual nas esquerdas a que o colunista Rui Tavares pertence ou parece pertencer. O seu narcisismo e vontade oportunista de determinar a verdade e a razão não têm limites para essa esquerda.
A mutualização da dívida dos países da UE é um assunto muito sério. Para além de indispensáveis cautelas para que uns estados não se endividem responsabilizando todos os outros, com eurobonds ou quaisquer outros instrumentos financeiros, este passo exige a transferência para a UE de poderes de soberania. Isto é, exige passos significativos na direcção de uma União Política.
Voltemos ao conselho /comando  do colunista. É possível, claro, avançar com um projecto europeu de coordenação reforçada. Muita gente o sabe e não só os seus leitores. Mas não é isso que os defensores acérrimos da mutualização da dívida à "trouxa mocha" querem. Melhor: os estados que enumera não querem eurobonds sem que a Alemanha participe. Por razões óbvias. Por isso, não avançarão com os eurobonds, apesar de saberem que é possível a tal coordenação reforçada.
Vai uma aposta?

















quinta-feira, 19 de março de 2020

Estado de Emergência....porque somos portugueses!

E pronto. Mais uma figura jurídica como panaceia para circunstâncias efectivamente muito graves. O Senhor Presidente da República cedeu à histeria dos habitués - e são muitos - que julgam "curar" tudo, social e economicamente com chavões e normas jurídicas. Reconhecendo que a medida não agrada a todos os portugueses. Mas invocando os nove séculos de história, por duas vezes pelo menos, num discurso escrito há muitas horas, seguramente. Muitas horas antes da discussão e aprovação da medida pela Assembleia da República. Nove séculos de história! E muito, muito nacionalismo, para que o populismo não ficasse em quarentena. Ora, este surto do chamado coronavirus, ou CoVid-19 é internacional, é de toda a humanidade exige a coordenação de todos os Estados. É profundamente errado e inconsequente invocar nacionalismos estultos ou simplesmente patéticos. Ouvi, por mero acaso, um debate na TVI com Fernando Medina, Sousa Tavares, Ferreira Leite, Garcia Pereira e o Senhor Conselheiro de Estado Lobo Xavier.  A posição patética do Senhor Conselheiro  foi tão evidente que reproduzo apenas um àparte de Fernando Medina: eu nem percebi o que o  Lobo Xavier quis dizer. Não está só Medina. Eu também não. É evidente aquilo que disse: nenhuma guerra foi ganha sem uma boa logística de apoio. É essencial coordenar esforços para continuarmos a produzir e podermos aliviar o esforço que já é pedido ao SNS. E muito mais será pedido. Ninguém percebeu o Senhor Conselheiro. Pela simples razão de que, nestas circunstâncias, é patético elogiar o comportamento cívico exemplar dos portugueses e decretar o estado de emergência. Mas quero fazer aqui uma referência a um ponto jurídico referido pelo Garcia Pereira, apesar da sua posterior mas habitual divagação política. Referiu, e bem, que o decreto presidencial era vago, permitindo que ulteriores diplomas legais preenchessem os vazios. Isto é, consentiu e consente o decreto presidencial que haja uma degradação normativa juridicamente perigosa.
Pelo que li, a fórmula verbal mais utilizada no decreto é pode. Pode o Governo ...Trata-se de uma carta em branco. Enfim, esperemos que nada aconteça de irremediável. Se não é seguramente o estado de emergência que resolverá o gravíssimo problema da disseminação do virus, esperemos que não tenha hipotéticos efeitos perversos. Porque, ao contrário do que os Senhores Presidente e Primeiro Ministro afirmaram, o estado de emergência suspende efectivamente a democracia. Só quem pense que a democracia se resume aos actos eleitorais é que poderá pensar que ela vigora em pleno com a suspensão ou limitação de direitos fundamentais. Porque há um lapso democrático, a medida é injuntivamente de curto prazo, 15 dias eventualmente prorrogáveis, como é sabido. Nestas circunstâncias, cabe à oposição e a todos nós ser muito vigilantes.  Mas, por muito que nos custe dizê-lo, os portugueses são habitualmente conformistas. Sejamos vigilantes para denunciarmos eventuais abusos, sempre à espreita quando o poder não é controlado. Em rigor, o poder já é frequentemente abusador entre nós e em circunstâncias normais. Por maioria de razão quando os poderes são excepcionais. E deixemos-nos de nacionalismos estultos porque o inimigo, neste caso, é a natureza, ainda que sob a forma macabra de um vírus. Que só venceremos se não permitirmos que ele se reproduza num outro que nos pode paralizar: o medo.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Assomo de dignidade


 Há dias - poucos - numa espera para audiência de partes em processo de acidente de trabalho, a conversa com a senhora procuradora adjunta resvalou para o estado da Justiça". Até "porque ela só estava ali a fazer um pézinho. Era do DIAP. "Justiça" vai entre aspas porque o caso é sério. Dei comigo a comentar que  um país onde alegadamente uns senhores desembargadores vendem acórdãos e cujos processos não atam nem desatam, ao mui particular gosto português não pode ser considerado um Estado de Direito. É um país nas ruas da amargura. Curiosamente, a notícia mais importante de ontem ( 03.12.2019) foi a de que o Conselho Superior da Magistratura decidiu aplicar a pena de expulsão ao Senhor Desembargador Rui Rangel, indiciado por vários comportamentos impróprios designadamente o de corrupção. No processo disciplinar. Antes mesmo da acusação formal no processo crime. À sua mulher Fátima Galante foi aplicada a pena de aposentação compulsiva. Mantém, pois, a maior parte dos seus direitos. Julgo que a alegada corrupção da Drª Fátima Galante não é primária. Há uns anos terá havido uma denúncia por um advogado e uma condenação....mas uma absolvição no STJ. Como é peculiar por cá, o advogado acabaria por ser mais tarde condenado por difamação na sequência da queixa da Senhora Desembargadora, Juíza de Direito à época. Enfim. Para dizer que as mencionadas decisões do CSM não são coisa de pequena monta, face ao que se tem visto em Portugal. Visto e revisto como as taxas de Justiça. Curiosamente, parece que a maioria dos membros do Conselho não magistrados ( eleitos e nomeados pela AR e PR) não estiveram presentes. Para reflectir. A propósito do litígio recente (?)  no Conselho Superior do Ministério Público. 
Esta manhã, os órgãos de comunicação social davam grande destaque às decisões do CSM - naturalmente - mas lá avançavam mais uma notícia que abre outro buraco no sistema de Justiça. Um Senhor empresário de Viseu comprava informações e favores a um Senhor Juíz do Tribunal Administrativo de Aveiro. Só o dianho! Ainda assim, eu tiro o chapéu aos membros do Conselho Superior da Magistratura. É um assomo de dignidade que se louva. Mas deixa-se uma pergunta. Os acórdãos são decisões colectivas. São assinados por três desembargadores. Como diria o Zé brasileiro: Cadê os outros?









domingo, 8 de setembro de 2019

Nau Catrineta

Dizem os mentideros que a Cat´rina Martins não viu outra forma de expressar a sua aversão às barragens senão culpá-las de participarem no excesso de consumo de água pela evaporação. É justo. Barragens, albufeiras e outros reservatórios quejandos são um grande problema ambiental. Fora com elas. Não vale a pena sorrir à socapa. A Dª Catarina tinha bem presente as imagens aterradoras do rompimento em Mariana ( 2015) e Brumadinho, mais recentemente. A evaporação não foi a responsável? Tretas. Vale o mesmo. No Brasil, como em Portugal e em todo o lado, resultado da exploração mineira ou tendo a produção electrica como objectivo, essas monstruosidades só servem o grande capital, como se vê pela brasileira Vale ou pela EDP portuguesa.  Perdão. Chinesa. Que alguém lembre isto à Dª Catariana. Mas enfim. O capital não tem pátria, como todos sabem, e a Dª Catarina melhor que ninguém. 
Por isso, continuam os mentideros, ela não admite que Portugal possa transformar-se num Luxemburgo, numa Holanda ou numa Irlanda. Pobres deles. Há tempos, - recentes - Portugal não era a Grécia. Agora, a Dª Catarina tudo fará para que Portugal nunca seja um dos mencionados países terceiro-mundistas. Nós sabemos que ela é obstinada. De nada valerá lembar-lhe que o Luxemburgo tem o maior PIB europeu. Que lá vive uma comunidade portuguesa de considerável dimensão. Ao ponto de se falar português no Parlamento.  A Holanda é uma sociedade aberta e tolerante, ao que dizem. Ah! bom, diria a Dª Catarina. Mas não tentou apoderar-se de parte do Brasil? Pouco importa que tenha sido há muito ou pouco tempo. Tem água a mais. Logo, a evaporação aí deve ser um pandemónio. Tal como na Irlanda. 
- Mas a República da Irlanda é o grande sucesso dentro da União Europeia.
- Por isso mesmo, responderia a Catarina. Toda a gente sabe que a União Europeia é um dos reservatórios do capitalismo internacional que oprime portugal e os seus trabalhadores. E não só. Não é exemplo para ninguém. Perguntem ao Johnson, dito Boris. Ele é que sabe. Ele e os capangas que querem mandar a União Europeia às urtigas. Nisso, a Dª Catarina, o Sr. Jerónimo, O Nigel Farage, o Victor Orbán, o Salvini e até o Mário Machado, provavelmente, estarão todos de acordo.
E siga a banda. Ou melhor a nau catrineta, porque de água se fala, e na água Portugal se afunda alegremente em tempo de seca.

segunda-feira, 25 de março de 2019

Honni soit qui mal y pense.

O Senhor Desembargador Manuel Ramos Soares é o actual Presidente de uma associação que dá pelo nome de ASJP. Comporta-se como um sindicato, sem assumir frontalmente essa qualidade. Consideramos essa associação uma aberração em qualquer Estado de Direito. Mas o que motiva este nosso humilde texto são declarações do Senhor Desembargador. Entrevistado pela jornalista Ana Henriques terá afirmado (i) que as execuções são actualmente o  cancro do nosso sistema judiciário. O cancro resultaria da perda de poderes dos juízes em resultado das reformas processuais. É verdade que as execuções são dos maiores cancros do sistema. Estão na origem de incompetências várias, de constantes abusos de poder por parte dos Senhores Agentes de Execução ( AE's ), de tropelias e expedientes para defraudar a Lei e até de corrupção manifesta. Alguns casos têm vindo a público. Mas esquecem rapidamente, como é regra neste país de memória curta. Mas os Senhores Juízes de execução contribuem diariamente para a manutenção e alastramento do carcinoma. Não respondem a tempo e horas às solicitações das partes. Não respondem de todo, as mais das vezes. Os AE's sentem-se por isso em roda livre. E impunes. Os Senhores Juízes de Execução não exercem sequer os poderes que a Lei lhes confere. E gostam de não os exercer.  Assim parece, pelo menos. Por isso dissemos que, com o seu dolce far niente ou molto vicino, contribuem decisivamente para o carcinoma e correspondentes metásteses. (ii) Mais afirma o Senhor Desembargador que o actual primeiro ministro é o culpado pelas criticadas decisões judiciais que suspenderam a  execução da pena de prisão em casos de violência doméstica. Não há cão nem gato que não opine em casos agora tão mediáticos. O actual primeiro ministro era ministro da Justiça quando o Código Penas foi alterado e a sobre-dita possibilidade de suspensão passou de três para cinco anos. Custa-me muito defender o então ministro da Justiça. O Legislador, enfim. Que tem costas larguíssimas. Esta alteração, como outras, veio apenas dar maior margem de decisão aos Senhores Juízes. Pressupôs-se assim, no julgador, estofo intelectual, cultura e capacidade de avaliação dos casos concretos. Mas o legislador nada impôs. Limitou-se a confiar na correcção de cada decisão em concreto. Ter-se-á enganado? Quem também se enganou involuntária ou deliberadamente foi o Senhor Desembargador, uma vez mais, quando diz que a possibilidade de suspensão da execução das  penas prevista na nossa legislação é a mais generosa ou permissiva da Europa. Há legisladores europeus que confiam ainda mais nos Juízes do que o nosso. A Irlanda parece permitir a suspensão em todos os casos, não enquadrando a medida por uma pena máxima em abstracto. Enfim, valerá sempre o bom senso, a ponderação e o estofo intelectual dos juízes. Honni soit qui mal y pense. (iii)  Um brevíssimo apontamento, finalmente, para a negação, por parte do Senhor Desembargador, da insinuação ou afirmação expressa, atribuída a Rui Rio, de que os juízes estão fechados no seu corporativismo. Também aqui é muito a contragosto que dou razão a Rui Rio. Por muito que custe ao Senhor desembargador ou aos Senhores juízes, em geral, alguém em Portugal terá dúvidas de que o sistema de governo das magistraturas é corporativo? Altamente corporativo? O argumento de que o Conselho Superior da Magistratura tem uma maioria de elementos não juízes é risível. Hilariante, ouso dizer. Não há qualquer outro caso mais flagrante de corporativismo do que a redoma organizativa  em que vivem os magistrados em Portugal. Seria fastidioso enumerar casos concretos que, infelizmente, materializam aquilo que é do conhecimento de todos.

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Comparsas e Trapaças

Tancos e (extensões): o cidadão assiste, perplexo, aos patéticos episódios gotejados desta farsa grotesca. E não acredita. Ninguém pode acreditar que as personagens consigam exibir - todas elas - o ar inocente mas arrogante de quem não sabe e não quer estar à porta do paiol. -  Não sabem de nada! - E todos, mas todos, estão sempre de consciência tranquila. Comme d'habitude. Não sabem nada. E ninguém lhes diz que nada saber quando deveriam saber importa uma desbragada incompetência e até cumplicidade, no mínimo. Em Portugal ninguém sabe de nada que possa comprometer. Em Portugal, transformado pelos farsantes e comparsas num sítio mal frequentado, desde que o abocanharam, ninguém é responsável. Porque a questão, todas as questões estão ou vão ser averiguadas e investigadas. Depois se verá. Em averiguação a caminho do rio Lete está o episódio marinheiro da perda da caixa de munições que o zeloso cidadão encontrou na estrada e entregou num posto policial. Em averiguação. Só depois disso se podem tomar medidas. Não será preciso também um estudo de impacto ambiental? Reprima-se já o excesso de zelo da cidadão, única causa adequada do evento burlesco.
Infarmed: Os estudos e averiguações começaram por ser muito rápidos na farsa Infarmed. Seria transferido para o Porto. Palavra do pm. Do Costa, António, a não confundir com a  palavra  do Costa...do Castelo. Um ano depois e bastidores qb não foi transferido. Melhores estudos se produziram. E mais profundos.
Pantominas: o pm é um avalista. Um fiador. Um garante garantido. Todos os seus apaniguados são activos firmes, até que miraculosamente viram tóxicos. Ocorrem-me os episódios da farsa das incompatibilidades. Recente. Porque as mais antigas já foram. Lembram-se? O ministro Siza -  especialista em Direito Comercial, ao que consta - constituiu uma sociedade na véspera de o ser. Ministro, claro. E ficou gerente. Bem acompanhado pela parceira matrimonial ou consorte. Quando constou, o especialista não sabia da incompatibilidade. Todos sabemos que ele não sabia. Foi um lapso. Ó meu amigo! Você nunca teve um lapso? Promovido agora o Ministro Siza, a economia foi modelada a gosto, atenta a connection com a energia, diga-se EDP. Saiam da economia as energias. Renováveis e não renováveis. Mas ficou o Turismo. E lá está em destaque a cara metade. Mas agora, o Ministro Siza sabe. Sabe Siza, Siza sabe. Incompatibiliadade? Era o que faltava!!!. Chegou e disse. Pôs o chapéu e foi-se. Algum tempo depois: pois, pois, declarar-se-á impedido com questões relacionadas com a associação a que preside a consorte. Quais serão? Muita energia a despender para separar o inseparável. Que activo mais complexo. A juntar ao Secretário Galamba (bem) içado para a energia do Ambiente.
Incêndios: Das tragédias de 2017 retiraram-se algumas conclusões. (i) obrigar os particulares a limpar já que o Estado e as suas extensões não limpam. (ii) Propaganda, muita propaganda acerca de apoios, desmentida pela realidade. (iii) retenção obscena de verbas comunitárias pelo próprio Estado. (iv) Face ao exemplo, vigarices e urdiduras várias para burlas e apropriações indevidas. Tudo a ser averiguado. Tudo a ser investigado, claro está. Mas, Monchique foi em 2018. Trágico também. O pm congratula-se: não houve vítimas e mais: isto só prova como tudo o resto correu bem. Palmas. Palminhas. Extraordinário. Simplesmente extraordinário.
OE 2018: dois apontamentos comezinhos: a electricidade vai baixar em 2019. Soprem as trombetas; libertem-se os canais populistas. Afinal será apenas o IVA no aluguer dos contadores da mais baixa potência. A potência que não permite ligar a chaleira e a luz da cozinha em simultâneo porque faz disparar o disjuntor. Bolas. Arre burro!De Loures a Lisboa é um esticão.
Outro: reforma aos 60 anos desde que haja 40 anos de contribuições. Olá!? Esclarecimentos do Ministro Vieira: aos 61 com 40 anos de contribuição já tem penalizações. Pois. Não começou a descontar aos 20. A medida destina-se apenas a compensar o trabalho infantil de outrora. É justo.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Leviatã e bemotes

Vejo, sem espanto, o anúncio "EDP Mais O plano de saúde para viver melhor" ocupando toda a pg3 do CM de hoje. De onde vem a sua energia? Descontos até 70%. O EDP Mais custa apenas €4,90 por mês
O anúncio está apelativo, como convém. Uma excelente fotografia com três personagens bonitas, com ar acolhedor e responsável, cobrindo três gerações. Duas mulheres. A mais velha, de óculos e cabelo prateado, um sorriso estudado, sereno, mostrando uma dentadura muito branca e de uma regularidade impecável. Prótese, claro. Que importa? Irrepreensível, esteticamente. Adivinha-se uma blusa verde com ligeira abertura por baixo da bata branca, impecável, abotoada à frente. As mãos cruzadas e, na direita, o instrumento típico dos oftalmologistas. A segunda mulher é morena. Mais jovem, mas trintona. O sorriso é discreto e sensual. A bata branca, com cinto e abotoamento lateral. Por baixo, vê-se uma blusa azul, com discretas pregas no peito e, também, na mão direita, os instrumentos de dentista (?), ou assim assim: a escova de dentes e o espelho metálico. Está ao centro, a morena. Do seu lado direito, um homem: de gravata cor de vinho, sobressaindo na brancura da bata e estetoscópio ao pescoço. Cabelo curto e barba aparada, já branca no queixo e maxilares, bigode ainda preto. Tem um olhar fixo e inquisidor. Na mão direita, adivinham-se uns papéis, talvez exames médicos encobertos pela antebraço da mulher morena.
Aí está. A EDP Mais vende-nos agora seguros de saúde. E paga toda a página 3 do Correio da Manhã do dia 11 de Junho de 2018.
O anúncio não me espanta. Há meses ou anos talvez que deparo com anúncios da Comunidade EDP oferecendo descontos em viagens, hotéis, restaurantes, enfim, nos serviços e produtos mais insuspeitos e diversificados.
A EDP é agora presença constante. Mas a GALP e outras petrolíferas vendem jornais, revistas, chocolates, roupas, e muito nos quiosques das bombas - e não só -. Os bancos vendem jóias, faiança, talheres e também viagens, excursões etc. etc. Os CTT idem aspas. É tudo um ver se te avias.
Como é sabido, a personalidade jurídica das sociedades comercias está sujeita ao princípio da especificidade. Isto é: a lei confere personalidade jurídica a estas e outras pessoas colectivas com o objectivo específico de poderem prosseguir o seu objecto social. Nada mais do que isso. O propósito legislativo é o de lhes facultar os meios jurídicos necessários para a prossecução das actividades que constituem o seu objecto social. 
Alguém concebe que a EDP tenha no seu objecto social a venda de seguros de saúde? E os protocolos ( imaginamos) com agências de viagens, hotéis, restaurantes e por aí fora?
As micro e pequenas empresas - até as médias empresas - são fiscalizadas por tudo e por nada. Mas os behemoths como bancos, petrolíferas, empresas energéticas usam e abusam da sua personalidade colectiva para fazerem dinheiro em todos os sectores, originando uma intolerável concorrência desleal e asfixia económica de todos os restantes operadores. É desolador.  Os papagaios que seguram os tentáculos de Leviatã nada vêem e nada querem ver. Os danos sociais e económicos que estas atitudes ilegais e abusivas ocasionam são incalculáveis. Em bom rigor, estas ilegalidades que ninguém vê e ninguém quer ver são um atropelo gravíssimo à liberdade. Mais tarde ou mais cedo, o cidadão ver-se-á confrontado com vinculações jurídicas incontroláveis. O cidadão será cada vez mais incapaz determinar a sua vida com um mínimo de racionalidade e de liberdade. Enfim: mas quem pode competir com tais beemotes? Quem poderá pagar cursos universitários para satisfazer docências de ex-ministros? Ou viagens ao estrangeiro? Ou camarotes e bilhetes para jogos de futebol. E...? E....?  
Que mundo homogéneo, feio e desinteressante vai paulatinamente formatando o nosso espírito e dominando a nossa vontade! ? Como é fácil construir a teia da servidão! 

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Mentelapsus, Mentecaptus

Para calar o caso das viagens foi anunciado um código de ética porque a lei não basta. E têm razão. A Lei é intragável. O tal código deverá ser em banda desenhada, pois claro. A propósito: alguém o viu, digo, alguém o leu? Como algumas das viagens foram pagas pela Huawei, talvez tenha seguido para ministros e secretários de estado via SMS ou via WhatsApp. As TI ( tecnologias de informação) são agora instrumentos vitais no combate aos fogos, como é sabido. Sempre foram. Ponhamos os olhos no estrondoso SIRESP.
Para os distraídos, vulgo mentelapsus, vai ser criado um guia de incompatibilidades. Não é extraordinário? Tantos lapsus!  O PM já teve lapsus. O seu amigo e adjunto teve lapsus. O secretário de estado do desporto teve lapsus. Enfim. Pode conjugar-se o verbo cantarolanto: eu lapso, tu lapsas, ele lapsa...e por aí fora. O ainda não ministro Siza Vieira constituíu uma sociedade imobiliária um dia antes de tomar passe. Aqui, nada de lapsus. Au contraire: trés avisé. Mas, -só o dianho - o ministro a haver e já gerente colapsou logo nas incompatibilidades. Uma sumidade em direito comercial lapsou num princípio ético intuitivo. Terá lapsado com a EDP e a CTG (china três gargantes). O amigo e PM saíu em defesa do amigo, naturalmente. Saíu sempre em defesa dos amigos. Quem nunca lapsou que atire a primeira pedra.
Tudo isto é divertido. Por isso, lá vamos, cantando e rindo. Há quem espere milagres do TC ( tribunal constitucional). Eu não. Mas sempre direi que o homem deveria ser demitido. O lapso poderá desculpar-se. Mas tamanha incompetência, não.