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segunda-feira, 30 de março de 2020

Vai uma aposta?

Em Novembro de 2013, assisti a uma conferência e debate em Bruxelas, promovida pela Comissão da UE com o tema Assises de la Justice. Era comissária da Justiça e vice-presidente a Luxemburguesa Vivianne Reding. Rui Tavares era então euro-deputado e foi um dos oradores no segundo dia da conferência. Para não ser desagradável, direi apenas que senti algum constrangimento com a falta de qualidade e de arrojo do Senhor euro-deputado. Mas senti o mesmo com a intervenção da convidada Paula Teixeira da Cruz, então Ministra da Justiça de Portugal. Estas duas intervenções foram medíocres, banais, sem fôlego ou arrojo, ao contrário de muitas outras e particularmente das de Vivianne Reding que aí confirmou plenamente  a sua lucidez e tenacidade insistindo que a Europa precisava de quem pensasse e agisse "fora da caixa". 
Curiosamente, o ex-eurodeputado Tavares, a quem devemos o conhecido fenómeno Joacine escreveu um artigo no Público do dia 27 intitulado Com Alemanha ou sem, avancem com os Eurobonds. Aqui está um conselho em jeito de comando determinado e audaz. Não resisto a transcrever os dois primeiros parágrafos:
"Desde 2012 que os leitores desta crónica sabem uma coisa: não precisamos da Alemanha para emitir eurobonds- títulos de dívida comum a vários países da zona euro. Ontem, os leitores do colunista Wolfgang Munchau, do Finantial Times, também o ficaram a saber. Pode ser que agora os eurocéticos portugueses comecem a prestar atenção.
" Como se sabe, os países da zona euro têm uma moeda comum mas têm dívidas separadas. Isto torna o euro uma bizarria face a moedas como o dolar, e a zona euro uma bizarria face a outras uniões monetárias como os EUA". 
UFF! É extraordinário. Sem pretensões "estruturalistas", aí vai: os leitores do Senhor Tavares sabem coisas desde 2012 que os do Financial Times, designadamente, só agora souberam. Não é fantástico?  O facto de o euro ser comum a muitos Estados da UE é uma bizarria, face a moedas como o dólar e a a zona euro uma bizarria face a outras uniões monetárias como os EUA. Extraordinário! Ó Senhor Tavares, os EUA são um Estado Federal, uma união política, como a Alemanha e tantas outras. Não são uma união monetária. Não seria bom ler alguma coisa sobre a teoria da integração, Senhor Tavares? O que fez durante o seu mandato europeu? Já agora: olhe que o dólar é nome de moeda de vários estados soberanos. Já ouviu falar do Canadá e do dólar canadiano?
Vamos ao que importa. Descontando as embrulhadas do citado "colunista"o artigo apanha a embalagem da oportunista e propalada "desintegração" do último Conselho Europeu. Os tais nove Estados que querem os eurobonds aproveitaram a epidemia coronavirus para divulgarem a título de ameaça: (i) ou se mutualizava a dívida com os eurobonds ou (ii) eles batiam à porta da desintegração europeia. Celebrizou-se uma expressão muito democrática e muito educada, - como é costume, -  do António Costa: repugnate, (o discurso ou posição do Ministro Holandês das Finanças); Não temos disponibilidade para ouvirmos ministros das Finanças Holandeses. (Alusão a Joroen Dijsselbloem), seu compadre socialista e antecessor do mago Centeno no chamado eurogrupo). A UE tem as costas largas. Nada faz quando deveria agir rapidamente e em comum. Pelo que nos parece, a Senhora Merkl, para esta mesma gente, reincarnou o papel do diabo depois de ter assumido, com a questão dos refugiados- e não só- o papel de estadista/mutter generosa, determinada e simpática.
Declaração de interesses: sou europeista e federalista. Logo, gostaria que a UE caminhasse para uma União Política. Mas está muito longe de "mutualizar" a maioria das suas políticas! O euro não é sequer comum a todos os países membros da UE.
A UE nada faz? Então os empréstimos que resgataram vários países membros, designadamente Portugal, nada foram? Nada são? Então a actual disponibilidade do Banco Central Europeu para comprar privilegiada e ilimitadamente toda a dívida emitida pelos estados membros não é nada? Os 750mil milhões de euros  de apoio disponibilizados pela UE não são nada? A eliminação de limites orçamentais e até de regras de concorrência não é nada? Poderíamos ir mais longe? É verdade. Poderíamos. Mas não deveremos esquecer que à UE, no estado de integração em que se encontra, compete-lhe sobretudo coordenar as politicas dos estados membros. A capacidade de decisão dos órgãos verdadeiramente comunitários ( Comissão e Parlamento) é limitada, naturalmente. O Conselho, como do nome resulta, é o órgão colectivo de todos os estados membros. Logo, deve-se a todos a decisão, porque assim entenderam. No último Conselho nove Estados mostraram-se favoráveis à mutualização da dívida. Mas os estados membros são 27. Em democracia há maiorias e minorias.  Neste caso, como é sabido, o Conselho delibera até por unanimidade. Não podemos ser democratas apenas quando os outros concordam connosco, como é habitual nas esquerdas a que o colunista Rui Tavares pertence ou parece pertencer. O seu narcisismo e vontade oportunista de determinar a verdade e a razão não têm limites para essa esquerda.
A mutualização da dívida dos países da UE é um assunto muito sério. Para além de indispensáveis cautelas para que uns estados não se endividem responsabilizando todos os outros, com eurobonds ou quaisquer outros instrumentos financeiros, este passo exige a transferência para a UE de poderes de soberania. Isto é, exige passos significativos na direcção de uma União Política.
Voltemos ao conselho /comando  do colunista. É possível, claro, avançar com um projecto europeu de coordenação reforçada. Muita gente o sabe e não só os seus leitores. Mas não é isso que os defensores acérrimos da mutualização da dívida à "trouxa mocha" querem. Melhor: os estados que enumera não querem eurobonds sem que a Alemanha participe. Por razões óbvias. Por isso, não avançarão com os eurobonds, apesar de saberem que é possível a tal coordenação reforçada.
Vai uma aposta?

















quinta-feira, 19 de março de 2020

Estado de Emergência....porque somos portugueses!

E pronto. Mais uma figura jurídica como panaceia para circunstâncias efectivamente muito graves. O Senhor Presidente da República cedeu à histeria dos habitués - e são muitos - que julgam "curar" tudo, social e economicamente com chavões e normas jurídicas. Reconhecendo que a medida não agrada a todos os portugueses. Mas invocando os nove séculos de história, por duas vezes pelo menos, num discurso escrito há muitas horas, seguramente. Muitas horas antes da discussão e aprovação da medida pela Assembleia da República. Nove séculos de história! E muito, muito nacionalismo, para que o populismo não ficasse em quarentena. Ora, este surto do chamado coronavirus, ou CoVid-19 é internacional, é de toda a humanidade exige a coordenação de todos os Estados. É profundamente errado e inconsequente invocar nacionalismos estultos ou simplesmente patéticos. Ouvi, por mero acaso, um debate na TVI com Fernando Medina, Sousa Tavares, Ferreira Leite, Garcia Pereira e o Senhor Conselheiro de Estado Lobo Xavier.  A posição patética do Senhor Conselheiro  foi tão evidente que reproduzo apenas um àparte de Fernando Medina: eu nem percebi o que o  Lobo Xavier quis dizer. Não está só Medina. Eu também não. É evidente aquilo que disse: nenhuma guerra foi ganha sem uma boa logística de apoio. É essencial coordenar esforços para continuarmos a produzir e podermos aliviar o esforço que já é pedido ao SNS. E muito mais será pedido. Ninguém percebeu o Senhor Conselheiro. Pela simples razão de que, nestas circunstâncias, é patético elogiar o comportamento cívico exemplar dos portugueses e decretar o estado de emergência. Mas quero fazer aqui uma referência a um ponto jurídico referido pelo Garcia Pereira, apesar da sua posterior mas habitual divagação política. Referiu, e bem, que o decreto presidencial era vago, permitindo que ulteriores diplomas legais preenchessem os vazios. Isto é, consentiu e consente o decreto presidencial que haja uma degradação normativa juridicamente perigosa.
Pelo que li, a fórmula verbal mais utilizada no decreto é pode. Pode o Governo ...Trata-se de uma carta em branco. Enfim, esperemos que nada aconteça de irremediável. Se não é seguramente o estado de emergência que resolverá o gravíssimo problema da disseminação do virus, esperemos que não tenha hipotéticos efeitos perversos. Porque, ao contrário do que os Senhores Presidente e Primeiro Ministro afirmaram, o estado de emergência suspende efectivamente a democracia. Só quem pense que a democracia se resume aos actos eleitorais é que poderá pensar que ela vigora em pleno com a suspensão ou limitação de direitos fundamentais. Porque há um lapso democrático, a medida é injuntivamente de curto prazo, 15 dias eventualmente prorrogáveis, como é sabido. Nestas circunstâncias, cabe à oposição e a todos nós ser muito vigilantes.  Mas, por muito que nos custe dizê-lo, os portugueses são habitualmente conformistas. Sejamos vigilantes para denunciarmos eventuais abusos, sempre à espreita quando o poder não é controlado. Em rigor, o poder já é frequentemente abusador entre nós e em circunstâncias normais. Por maioria de razão quando os poderes são excepcionais. E deixemos-nos de nacionalismos estultos porque o inimigo, neste caso, é a natureza, ainda que sob a forma macabra de um vírus. Que só venceremos se não permitirmos que ele se reproduza num outro que nos pode paralizar: o medo.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Assomo de dignidade


 Há dias - poucos - numa espera para audiência de partes em processo de acidente de trabalho, a conversa com a senhora procuradora adjunta resvalou para o estado da Justiça". Até "porque ela só estava ali a fazer um pézinho. Era do DIAP. "Justiça" vai entre aspas porque o caso é sério. Dei comigo a comentar que  um país onde alegadamente uns senhores desembargadores vendem acórdãos e cujos processos não atam nem desatam, ao mui particular gosto português não pode ser considerado um Estado de Direito. É um país nas ruas da amargura. Curiosamente, a notícia mais importante de ontem ( 03.12.2019) foi a de que o Conselho Superior da Magistratura decidiu aplicar a pena de expulsão ao Senhor Desembargador Rui Rangel, indiciado por vários comportamentos impróprios designadamente o de corrupção. No processo disciplinar. Antes mesmo da acusação formal no processo crime. À sua mulher Fátima Galante foi aplicada a pena de aposentação compulsiva. Mantém, pois, a maior parte dos seus direitos. Julgo que a alegada corrupção da Drª Fátima Galante não é primária. Há uns anos terá havido uma denúncia por um advogado e uma condenação....mas uma absolvição no STJ. Como é peculiar por cá, o advogado acabaria por ser mais tarde condenado por difamação na sequência da queixa da Senhora Desembargadora, Juíza de Direito à época. Enfim. Para dizer que as mencionadas decisões do CSM não são coisa de pequena monta, face ao que se tem visto em Portugal. Visto e revisto como as taxas de Justiça. Curiosamente, parece que a maioria dos membros do Conselho não magistrados ( eleitos e nomeados pela AR e PR) não estiveram presentes. Para reflectir. A propósito do litígio recente (?)  no Conselho Superior do Ministério Público. 
Esta manhã, os órgãos de comunicação social davam grande destaque às decisões do CSM - naturalmente - mas lá avançavam mais uma notícia que abre outro buraco no sistema de Justiça. Um Senhor empresário de Viseu comprava informações e favores a um Senhor Juíz do Tribunal Administrativo de Aveiro. Só o dianho! Ainda assim, eu tiro o chapéu aos membros do Conselho Superior da Magistratura. É um assomo de dignidade que se louva. Mas deixa-se uma pergunta. Os acórdãos são decisões colectivas. São assinados por três desembargadores. Como diria o Zé brasileiro: Cadê os outros?









domingo, 8 de setembro de 2019

Nau Catrineta

Dizem os mentideros que a Cat´rina Martins não viu outra forma de expressar a sua aversão às barragens senão culpá-las de participarem no excesso de consumo de água pela evaporação. É justo. Barragens, albufeiras e outros reservatórios quejandos são um grande problema ambiental. Fora com elas. Não vale a pena sorrir à socapa. A Dª Catarina tinha bem presente as imagens aterradoras do rompimento em Mariana ( 2015) e Brumadinho, mais recentemente. A evaporação não foi a responsável? Tretas. Vale o mesmo. No Brasil, como em Portugal e em todo o lado, resultado da exploração mineira ou tendo a produção electrica como objectivo, essas monstruosidades só servem o grande capital, como se vê pela brasileira Vale ou pela EDP portuguesa.  Perdão. Chinesa. Que alguém lembre isto à Dª Catariana. Mas enfim. O capital não tem pátria, como todos sabem, e a Dª Catarina melhor que ninguém. 
Por isso, continuam os mentideros, ela não admite que Portugal possa transformar-se num Luxemburgo, numa Holanda ou numa Irlanda. Pobres deles. Há tempos, - recentes - Portugal não era a Grécia. Agora, a Dª Catarina tudo fará para que Portugal nunca seja um dos mencionados países terceiro-mundistas. Nós sabemos que ela é obstinada. De nada valerá lembar-lhe que o Luxemburgo tem o maior PIB europeu. Que lá vive uma comunidade portuguesa de considerável dimensão. Ao ponto de se falar português no Parlamento.  A Holanda é uma sociedade aberta e tolerante, ao que dizem. Ah! bom, diria a Dª Catarina. Mas não tentou apoderar-se de parte do Brasil? Pouco importa que tenha sido há muito ou pouco tempo. Tem água a mais. Logo, a evaporação aí deve ser um pandemónio. Tal como na Irlanda. 
- Mas a República da Irlanda é o grande sucesso dentro da União Europeia.
- Por isso mesmo, responderia a Catarina. Toda a gente sabe que a União Europeia é um dos reservatórios do capitalismo internacional que oprime portugal e os seus trabalhadores. E não só. Não é exemplo para ninguém. Perguntem ao Johnson, dito Boris. Ele é que sabe. Ele e os capangas que querem mandar a União Europeia às urtigas. Nisso, a Dª Catarina, o Sr. Jerónimo, O Nigel Farage, o Victor Orbán, o Salvini e até o Mário Machado, provavelmente, estarão todos de acordo.
E siga a banda. Ou melhor a nau catrineta, porque de água se fala, e na água Portugal se afunda alegremente em tempo de seca.

segunda-feira, 25 de março de 2019

Honni soit qui mal y pense.

O Senhor Desembargador Manuel Ramos Soares é o actual Presidente de uma associação que dá pelo nome de ASJP. Comporta-se como um sindicato, sem assumir frontalmente essa qualidade. Consideramos essa associação uma aberração em qualquer Estado de Direito. Mas o que motiva este nosso humilde texto são declarações do Senhor Desembargador. Entrevistado pela jornalista Ana Henriques terá afirmado (i) que as execuções são actualmente o  cancro do nosso sistema judiciário. O cancro resultaria da perda de poderes dos juízes em resultado das reformas processuais. É verdade que as execuções são dos maiores cancros do sistema. Estão na origem de incompetências várias, de constantes abusos de poder por parte dos Senhores Agentes de Execução ( AE's ), de tropelias e expedientes para defraudar a Lei e até de corrupção manifesta. Alguns casos têm vindo a público. Mas esquecem rapidamente, como é regra neste país de memória curta. Mas os Senhores Juízes de execução contribuem diariamente para a manutenção e alastramento do carcinoma. Não respondem a tempo e horas às solicitações das partes. Não respondem de todo, as mais das vezes. Os AE's sentem-se por isso em roda livre. E impunes. Os Senhores Juízes de Execução não exercem sequer os poderes que a Lei lhes confere. E gostam de não os exercer.  Assim parece, pelo menos. Por isso dissemos que, com o seu dolce far niente ou molto vicino, contribuem decisivamente para o carcinoma e correspondentes metásteses. (ii) Mais afirma o Senhor Desembargador que o actual primeiro ministro é o culpado pelas criticadas decisões judiciais que suspenderam a  execução da pena de prisão em casos de violência doméstica. Não há cão nem gato que não opine em casos agora tão mediáticos. O actual primeiro ministro era ministro da Justiça quando o Código Penas foi alterado e a sobre-dita possibilidade de suspensão passou de três para cinco anos. Custa-me muito defender o então ministro da Justiça. O Legislador, enfim. Que tem costas larguíssimas. Esta alteração, como outras, veio apenas dar maior margem de decisão aos Senhores Juízes. Pressupôs-se assim, no julgador, estofo intelectual, cultura e capacidade de avaliação dos casos concretos. Mas o legislador nada impôs. Limitou-se a confiar na correcção de cada decisão em concreto. Ter-se-á enganado? Quem também se enganou involuntária ou deliberadamente foi o Senhor Desembargador, uma vez mais, quando diz que a possibilidade de suspensão da execução das  penas prevista na nossa legislação é a mais generosa ou permissiva da Europa. Há legisladores europeus que confiam ainda mais nos Juízes do que o nosso. A Irlanda parece permitir a suspensão em todos os casos, não enquadrando a medida por uma pena máxima em abstracto. Enfim, valerá sempre o bom senso, a ponderação e o estofo intelectual dos juízes. Honni soit qui mal y pense. (iii)  Um brevíssimo apontamento, finalmente, para a negação, por parte do Senhor Desembargador, da insinuação ou afirmação expressa, atribuída a Rui Rio, de que os juízes estão fechados no seu corporativismo. Também aqui é muito a contragosto que dou razão a Rui Rio. Por muito que custe ao Senhor desembargador ou aos Senhores juízes, em geral, alguém em Portugal terá dúvidas de que o sistema de governo das magistraturas é corporativo? Altamente corporativo? O argumento de que o Conselho Superior da Magistratura tem uma maioria de elementos não juízes é risível. Hilariante, ouso dizer. Não há qualquer outro caso mais flagrante de corporativismo do que a redoma organizativa  em que vivem os magistrados em Portugal. Seria fastidioso enumerar casos concretos que, infelizmente, materializam aquilo que é do conhecimento de todos.

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Comparsas e Trapaças

Tancos e (extensões): o cidadão assiste, perplexo, aos patéticos episódios gotejados desta farsa grotesca. E não acredita. Ninguém pode acreditar que as personagens consigam exibir - todas elas - o ar inocente mas arrogante de quem não sabe e não quer estar à porta do paiol. -  Não sabem de nada! - E todos, mas todos, estão sempre de consciência tranquila. Comme d'habitude. Não sabem nada. E ninguém lhes diz que nada saber quando deveriam saber importa uma desbragada incompetência e até cumplicidade, no mínimo. Em Portugal ninguém sabe de nada que possa comprometer. Em Portugal, transformado pelos farsantes e comparsas num sítio mal frequentado, desde que o abocanharam, ninguém é responsável. Porque a questão, todas as questões estão ou vão ser averiguadas e investigadas. Depois se verá. Em averiguação a caminho do rio Lete está o episódio marinheiro da perda da caixa de munições que o zeloso cidadão encontrou na estrada e entregou num posto policial. Em averiguação. Só depois disso se podem tomar medidas. Não será preciso também um estudo de impacto ambiental? Reprima-se já o excesso de zelo da cidadão, única causa adequada do evento burlesco.
Infarmed: Os estudos e averiguações começaram por ser muito rápidos na farsa Infarmed. Seria transferido para o Porto. Palavra do pm. Do Costa, António, a não confundir com a  palavra  do Costa...do Castelo. Um ano depois e bastidores qb não foi transferido. Melhores estudos se produziram. E mais profundos.
Pantominas: o pm é um avalista. Um fiador. Um garante garantido. Todos os seus apaniguados são activos firmes, até que miraculosamente viram tóxicos. Ocorrem-me os episódios da farsa das incompatibilidades. Recente. Porque as mais antigas já foram. Lembram-se? O ministro Siza -  especialista em Direito Comercial, ao que consta - constituiu uma sociedade na véspera de o ser. Ministro, claro. E ficou gerente. Bem acompanhado pela parceira matrimonial ou consorte. Quando constou, o especialista não sabia da incompatibilidade. Todos sabemos que ele não sabia. Foi um lapso. Ó meu amigo! Você nunca teve um lapso? Promovido agora o Ministro Siza, a economia foi modelada a gosto, atenta a connection com a energia, diga-se EDP. Saiam da economia as energias. Renováveis e não renováveis. Mas ficou o Turismo. E lá está em destaque a cara metade. Mas agora, o Ministro Siza sabe. Sabe Siza, Siza sabe. Incompatibiliadade? Era o que faltava!!!. Chegou e disse. Pôs o chapéu e foi-se. Algum tempo depois: pois, pois, declarar-se-á impedido com questões relacionadas com a associação a que preside a consorte. Quais serão? Muita energia a despender para separar o inseparável. Que activo mais complexo. A juntar ao Secretário Galamba (bem) içado para a energia do Ambiente.
Incêndios: Das tragédias de 2017 retiraram-se algumas conclusões. (i) obrigar os particulares a limpar já que o Estado e as suas extensões não limpam. (ii) Propaganda, muita propaganda acerca de apoios, desmentida pela realidade. (iii) retenção obscena de verbas comunitárias pelo próprio Estado. (iv) Face ao exemplo, vigarices e urdiduras várias para burlas e apropriações indevidas. Tudo a ser averiguado. Tudo a ser investigado, claro está. Mas, Monchique foi em 2018. Trágico também. O pm congratula-se: não houve vítimas e mais: isto só prova como tudo o resto correu bem. Palmas. Palminhas. Extraordinário. Simplesmente extraordinário.
OE 2018: dois apontamentos comezinhos: a electricidade vai baixar em 2019. Soprem as trombetas; libertem-se os canais populistas. Afinal será apenas o IVA no aluguer dos contadores da mais baixa potência. A potência que não permite ligar a chaleira e a luz da cozinha em simultâneo porque faz disparar o disjuntor. Bolas. Arre burro!De Loures a Lisboa é um esticão.
Outro: reforma aos 60 anos desde que haja 40 anos de contribuições. Olá!? Esclarecimentos do Ministro Vieira: aos 61 com 40 anos de contribuição já tem penalizações. Pois. Não começou a descontar aos 20. A medida destina-se apenas a compensar o trabalho infantil de outrora. É justo.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Leviatã e bemotes

Vejo, sem espanto, o anúncio "EDP Mais O plano de saúde para viver melhor" ocupando toda a pg3 do CM de hoje. De onde vem a sua energia? Descontos até 70%. O EDP Mais custa apenas €4,90 por mês
O anúncio está apelativo, como convém. Uma excelente fotografia com três personagens bonitas, com ar acolhedor e responsável, cobrindo três gerações. Duas mulheres. A mais velha, de óculos e cabelo prateado, um sorriso estudado, sereno, mostrando uma dentadura muito branca e de uma regularidade impecável. Prótese, claro. Que importa? Irrepreensível, esteticamente. Adivinha-se uma blusa verde com ligeira abertura por baixo da bata branca, impecável, abotoada à frente. As mãos cruzadas e, na direita, o instrumento típico dos oftalmologistas. A segunda mulher é morena. Mais jovem, mas trintona. O sorriso é discreto e sensual. A bata branca, com cinto e abotoamento lateral. Por baixo, vê-se uma blusa azul, com discretas pregas no peito e, também, na mão direita, os instrumentos de dentista (?), ou assim assim: a escova de dentes e o espelho metálico. Está ao centro, a morena. Do seu lado direito, um homem: de gravata cor de vinho, sobressaindo na brancura da bata e estetoscópio ao pescoço. Cabelo curto e barba aparada, já branca no queixo e maxilares, bigode ainda preto. Tem um olhar fixo e inquisidor. Na mão direita, adivinham-se uns papéis, talvez exames médicos encobertos pela antebraço da mulher morena.
Aí está. A EDP Mais vende-nos agora seguros de saúde. E paga toda a página 3 do Correio da Manhã do dia 11 de Junho de 2018.
O anúncio não me espanta. Há meses ou anos talvez que deparo com anúncios da Comunidade EDP oferecendo descontos em viagens, hotéis, restaurantes, enfim, nos serviços e produtos mais insuspeitos e diversificados.
A EDP é agora presença constante. Mas a GALP e outras petrolíferas vendem jornais, revistas, chocolates, roupas, e muito nos quiosques das bombas - e não só -. Os bancos vendem jóias, faiança, talheres e também viagens, excursões etc. etc. Os CTT idem aspas. É tudo um ver se te avias.
Como é sabido, a personalidade jurídica das sociedades comercias está sujeita ao princípio da especificidade. Isto é: a lei confere personalidade jurídica a estas e outras pessoas colectivas com o objectivo específico de poderem prosseguir o seu objecto social. Nada mais do que isso. O propósito legislativo é o de lhes facultar os meios jurídicos necessários para a prossecução das actividades que constituem o seu objecto social. 
Alguém concebe que a EDP tenha no seu objecto social a venda de seguros de saúde? E os protocolos ( imaginamos) com agências de viagens, hotéis, restaurantes e por aí fora?
As micro e pequenas empresas - até as médias empresas - são fiscalizadas por tudo e por nada. Mas os behemoths como bancos, petrolíferas, empresas energéticas usam e abusam da sua personalidade colectiva para fazerem dinheiro em todos os sectores, originando uma intolerável concorrência desleal e asfixia económica de todos os restantes operadores. É desolador.  Os papagaios que seguram os tentáculos de Leviatã nada vêem e nada querem ver. Os danos sociais e económicos que estas atitudes ilegais e abusivas ocasionam são incalculáveis. Em bom rigor, estas ilegalidades que ninguém vê e ninguém quer ver são um atropelo gravíssimo à liberdade. Mais tarde ou mais cedo, o cidadão ver-se-á confrontado com vinculações jurídicas incontroláveis. O cidadão será cada vez mais incapaz determinar a sua vida com um mínimo de racionalidade e de liberdade. Enfim: mas quem pode competir com tais beemotes? Quem poderá pagar cursos universitários para satisfazer docências de ex-ministros? Ou viagens ao estrangeiro? Ou camarotes e bilhetes para jogos de futebol. E...? E....?  
Que mundo homogéneo, feio e desinteressante vai paulatinamente formatando o nosso espírito e dominando a nossa vontade! ? Como é fácil construir a teia da servidão! 

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Mentelapsus, Mentecaptus

Para calar o caso das viagens foi anunciado um código de ética porque a lei não basta. E têm razão. A Lei é intragável. O tal código deverá ser em banda desenhada, pois claro. A propósito: alguém o viu, digo, alguém o leu? Como algumas das viagens foram pagas pela Huawei, talvez tenha seguido para ministros e secretários de estado via SMS ou via WhatsApp. As TI ( tecnologias de informação) são agora instrumentos vitais no combate aos fogos, como é sabido. Sempre foram. Ponhamos os olhos no estrondoso SIRESP.
Para os distraídos, vulgo mentelapsus, vai ser criado um guia de incompatibilidades. Não é extraordinário? Tantos lapsus!  O PM já teve lapsus. O seu amigo e adjunto teve lapsus. O secretário de estado do desporto teve lapsus. Enfim. Pode conjugar-se o verbo cantarolanto: eu lapso, tu lapsas, ele lapsa...e por aí fora. O ainda não ministro Siza Vieira constituíu uma sociedade imobiliária um dia antes de tomar passe. Aqui, nada de lapsus. Au contraire: trés avisé. Mas, -só o dianho - o ministro a haver e já gerente colapsou logo nas incompatibilidades. Uma sumidade em direito comercial lapsou num princípio ético intuitivo. Terá lapsado com a EDP e a CTG (china três gargantes). O amigo e PM saíu em defesa do amigo, naturalmente. Saíu sempre em defesa dos amigos. Quem nunca lapsou que atire a primeira pedra.
Tudo isto é divertido. Por isso, lá vamos, cantando e rindo. Há quem espere milagres do TC ( tribunal constitucional). Eu não. Mas sempre direi que o homem deveria ser demitido. O lapso poderá desculpar-se. Mas tamanha incompetência, não. 

segunda-feira, 2 de abril de 2018

"Realejo de disparates"

 Leio que o PCP e o BE propuseram que a AR aprovasse um texto de condenação do Estado Espanhol pela deriva autoritária para com a Catalunha e consequente solidariedade para com os exilados e presos políticos Catalães. Leio e pasmo. Antes de mais: não entendo que diabo de coisa (...) se pode propor com esta conteúdo. Moção não poderá ser. Só estão previstas moções de confiança e de censura ao Governo no âmbito dos poderes de fiscalização da AR. Resolução? Também não. As resoluções aprovam, alteram ou
rejeitam disposições legislativas. Enfim, desconheço eu e provavelmente muitos outros cidadãos a forma ou formas de que estes maganos se socorrem para estas actividades lúdicas enquanto representantes do povo português. Mas a forma é o menos. A que propósito se pode querer aprovar, em nome de todos nós, um voto de solidariedade para com um bando circense que diz hoje e desdiz amanhã e que teima em chamar autoritários e ditadores aos legítimos representantes de todo o povo espanhol? Oiço, estupefacto, que o Governo de Espanha deveria negociar com os fautores do procés independentista. Negociar o quê? O pusilânime Puigdemont não presidiu durante anos à Generalitat ? Não dispôs de milhares de ocasiões para negociar o que bem entendeu? Alguém o prendeu por defender a independência dentro da Constituição e das leis do estado espanhol? Alguém o proibiu de governar e tomar todas as decisões que quis e que concertou com o Parlament?
Imaginemos o piqueno e M. Rajoy á mesa de negociações. Qual seria a ordem de trabalhos? Autonomia? Independência? Autonomia já a têm. Maior do que que a maioria dos estados federados, ao que se sabe. Independência? Como seria possível a Rajoy negociar ilegalidades?  Como seria possível a Rajoy comprometer-se em desenhar uma hipotética Federação sem a anuência de todos os povos de espanha? Castela, Andaluzia, Estremadura, Galiza, País Basco, etc. etc.? A que propósito Rajoy e o Parlamento Espanhol são autoritários quando agem legalmente em representação de todos os povos de Espanha e o bando de Puigdemont é democrata só porque diz representar o povo Catalão? Sabendo nós que até isso é falso?
O bando de trapezistas que Puigdemont lidera tem verdadeiros mestres de prestidigitação. Mas espantoso é o modo como muitos catalães se deixam manipular. Soprarão do Mediterrâneo ventos de muita esquizofrenia. A alienação não poderia deixar de atingir esta paróquia  à beira mar plantada.
Pelo que li, parece que alguém teima em pensar e dizer algumas coisas acertadas. Mesmo no grupo recreativo que dá pelo nome de PS. Terá sido o caso de Sérgio Sousa Pinto que, acertadamente, catalogou como realejo de disparates este tipo de iniciativas parlamentares que consomem o dinheiro e a paciência dos portugueses.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Bonecos e Ventríloquos

Domingo à noite. Vejo e oiço na TV o Senhor comentador LMM - a quem já chamaram o boneco do ventríloquo -afirmar: o ex-vice presidente da Angola vai enviar uma carta para o processo dizendo que quer ser julgado em Angola. No Domingo anterior, iniciara a aproximação  à falta de vergonha dizendo que Angola tinha alterado a sua posição,  visto que já admitia julgar Manuel Vicente, findo o período de imunidade. Claro. Mas, se não julgasse, Portugal poderia sempre pedir a devolução do processo.
É de estarrecer. O Senhor MV está acusado de corromper um procurador do MP em Portugal. Nunca foi sequer possível notificar o Senhor. Angola nunca o investigou nem se dispôs a notificá-lo da acusação do MP português. Como gostava de ser jornalista.: - Senhor LMM, telefonou ao Senhor MV? Como sabe que vai mandar uma carta? Foi um recadinho que lhe enviou? O propósito é o de orquestrar a ignomínia de dizer que o nosso MP tem falta de siso, de bom senso, porque se trata de uma questão de Estado e não jurídica, etc. etc.? 
Claro que o Senhor LMM já está muito acompanhado. Não será bem acompanhado. Mas é profusamente acompanhado, seguramente. Com argumentos iguais, mas nada dizendo sobre a carta que será escrita, também o Arqto jornalista Saraiva escreveu um PS,  a despropósito, afirmando que a questão  é de bom senso e não jurídica. E o Seixas -reformado embaixador- diz o mesmo-. Pode dar-se o benefício da dúvida, mas é impossível não pensar na coincidência de a Senhor Ministra da Justiça ( Luso- Angolana ou vice versa) ter desleixadamente deixado cair a opinião de que o mandato da PGR ( Marques Vidal) não deveria ser renovado. Alguém mais manipulável dava um tremendo jeito!
Os crimes são julgados onde são cometidos, Senhores juristas de pacotilha. Para além disso, é sintomático que a bonecada fale sempre do ex-vice. Destacam sempre este cargo, porque também aqui o crime instrumentaliza o voto e outras instituições ditas democráticas para ganhar impunidade. Mas nunca destacam o facto de o Senhor MV ter subornado - ao que tudo indica - o procurador Figueira antes de ser vice  e estar a ser julgado já depois de ser vice. Perante a orquestração sem vergonha que teima em distorcer a opinião pública, damos connosco a pensar se a corrupção foi apenas aquela que está a ser julgada. Será? Manifestações tão grosseiras de ignorância e indignidade serão espontâneas? Ele há cucos para todos os gostos. E marionetas, obviamente. Sem elas, os cucos voariam sobre ninhos bem diferentes. Que remédio!

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Santa Paciência.



Relanceio em segundos o "saboroso ano de 2017" (Costa dixit, mas não para ser glosado por adversários políticos, está claro). Cada palavra em sua terra. Como os nabos.  Sempre oportuno o relance, no início de um novo sabor, conviremos. O que verifico, sem espanto, é um mar de consciências tranquilas. Mare Tranquilitattis, que é uma região lunar feita de lava basáltica onde pousou a Eagle da Apollo 11, e onde o Armstrong deu o seu pequeno passo que foi mesmo gigantesco para a humanidade. Método, sff. Consciências tranquilas sff.  Investiga-se a Fundação O Século: -Sejam benvindos! Temos a consciência tranquila, - diz o Senhor Emanuel Presidente e ex-autarca socialista. Algum jornalista, de má fé, seguramente, divulgou que na bendita Fundação, o Senhor Emanuel dá emprego à mulher, filhos, sobrinhada e piriquitada. E porque não? -Ninguém mais quer trabalhar ao fim de semana! O mesmo sucede com o seu vice, naturalmente. Anteriormente fora a Raríssimas: - a Dª Paula, tratada por Drª mas que afinal não era, também tinha a consciência tranquila. Tanto, tanto, que o País lhe devia ou ainda deve um pedido de desculpas. Desculpas a sério ou melhor "à séria" ( que desactualizado!) serão devidas ao Senhor Vieira, & Esposa, naturalmente. O Senhor Vieira, que gere os milhões da SS e não só, desconhece e ninguém o lembra ( brandos costumes) que as assembleias gerais são os órgãos de fiscalização de contas de todas as sociedades e também das associações. Os conselhos fiscais só acompanham as direcções e dão pareceres para os sócios e associados poderem apreciar e aprovar ou rejeitar as contas que as direcções apresentam. - Responderia: - ainda assim, estou de consciência tranquila. Era pro bono, mas sempre de consciência tranquila. Que tal um neologismo? pro bonoquila Mr. Vieira.
 A propósito de Paulas e de Drs: que admiração será essa? Há drs equivalentes, engenheiros equivalentes, sociólogos equivalentes nos governos e nos boys. repetidamente na Protecção Civil. Essa autoridade. Esta nação pode nem ser um País. Mas é uma boa equivalência. Os portugueses adoram canudos. As equivalência são apenas a captação profunda dos mais arreigados sentimentos nacionais. Um pouco mais aleatoriamente: Depois de Pedrógão Grande e mesmo depois da calamidade de Outubro, a Senhora Urbano estava de consciência tranquilíssima, como era notório. Algumas lagrimetas de iniciada não afectam a consciência. E o primeiro tinha nela tada a confiança. Como tem no Vieira e no Azeredo. Se a lagrimeta não afecta a consciência, muito menos afecta a tranquilidade. A oposição é execrável. Até invoca as ditas tragédias para fazer política. Porque será que a oposição não fala da pasta de dentes?
 E a anedota do senhor Azeredo? Qual delas? Aquela que fala de Tancos?! Não há anedota nenhuma equivalente no mundo civilizado. E no menos civilizado? Talvez haja. Porque não? Logo, a anedota do Azeredo tranquiliza, naturalmente, muitas consciências. Há mais. Muito mais. Mas fiquemo-nos por aqui. O importante agora é a reforma florestal. Importante mesmo é a ilusória reposição de rendimentos. Para a função pública, que ganha mais, sai mais cedo e mantém os tachos, de quem recebe e de quem os dá. Diz o povo: isto é como cebo em nariz de cão.
Houve o menor défice do século, mas a dívida não desceu. O Senhor Centeno até foi presidir ao clube dos "aérios". O desemprego também desceu. Mas os inscritos na SS desceram mais. A saúde, a educação, a defesa etc. alardeiam, aleivosamente, falta de meios.  O costume. Cativêmo-los e cantemos ao jeito de Camões: Aquela cativa que me tem cativo, porque nela vivo, já não quer que viva. Ah! Grande Camões. É isso mesmo. Tantas consciências tranquilas. Quem a perdeu ou nunca a teve, é claro que só pode afirmar a tranquilidade da sua consciência. Ontem, hoje e amanhã, cantaria o Cid. O nosso Cid é claro.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Autonomia e..." Infelice Vida"!

Participei há anos num debate informal cujo tema era interessante e sedutor: O sagrado e a Justiça. Decorreu no Botequim, enquadrado pela ironia fina e magistral de Natália Correia. Por ela, seguramente, fez questão de estar presente o então Ministro da Justiça, Laborinho Lúcio. O  
Código de Processo Penal fora publicado há menos de um mês. Lembro-me de ter aproveitado uma deixa de Laborinho Lúcio para questionar a oportunidade perdida por não ter sido bem mais restringido o princípio inquisitório. Enfim o debate perdia fulgor com as sempre maçadoras questões jurídico-processuais. Mas o sentido de oportunidade de Natália Correia salvaria - como habitualmente - a vertente magicamente culta e divertida do tema. Foi então que, durante uma boa meia hora, Natália discorreu sobre o tema, conseguindo brilhantes elos de ligação entre o sentimento da Pátria, que para ela deveria ser Mátria, e o então desafio que ironicamente apregoava com frequência do facto de sermos todos hespanhóis.
Tem-me ocorrido a provocatória mas extraordinária dissertação de Natália nesse encontro - e noutros entre petiscos e beberagens - a propósito da chamada crise catalã, que aí não foi especificada, naturalmente. Estavamos longe de imaginar as circunstâncias e talvez o eficaz populismo de Carles P., Junqueras, Forcadell & Cª.
Saberão uns e outros, talvez menos a Cª, que um Condestável do Reino de Portugal, de seu nome Pedro, filho do infante e regente do mesmo nome, foi convidado pelo Concelho de Cem para liderar a luta catalã contra João II de Aragão? Foi proclamado Conde de Barcelona e, ao que parece, intitular-se-ía Rei da Catalunha e de Valência e Senhor de Maiorca e da Cerdenha.. Enfim. A guerra trouxe alguns revezes a D. Pedro, o português que liderou as forças catalãs na guerra contra Aragão de que fazia parte, como se sabe. D. Pedro era neto de Jaime II de Urgel, pela mãe, é claro. E também foi escritor: citamos a sátira Felice e Infelice vida para justificar o título. Ora, Aragão era então uma região, melhor, um dos vários reinos peninsulares. Segundo alguns, a luta catalã já então passaria por reivindicar autonomia, ou talvez melhor, preponderância. Enfim. Apesar de ser um dos agentes do processo de centralização iniciado pelos Reis Católicos ( Isabel de Castela e Fernando de Aragão), esta coroa só seria extinta formalmente em 1715 com o 4º decreto da Nova Planta. Foi extinta a Generalitat, foram extintas as Cortes e o Concelho de Cem, as vaguerias foram convertidas em corregedorias  e o vice-rei ( imagine-se!) foi substituído por um capitão-general. A língua administrativa passou a ser o castelhano.
Ponderado este laivo de pequena história e as circunstâncias actuais, apetece perguntar: tendo agora Generalitat, parlamento e sendo até o catalão uma língua oficial,  que mais poderão querer os Catalães? Cito, uma vez mais, um professor universitário de Barcelona que ouvi numa TV. Perguntava a moderadora: - mas se é assim ( mentiras e populismo) como explica que tanta gente ainda vote nos independentistas? - Não sei. Talvez as pessoas gostem mesmo de ser enganadas. Eis a enganada Cª e os enganadores dirigentes. Será assim? Será esta a democracia com que enchem a boca? Como se o sistema representativo de governo se resumisse aos actos eleitorais?
 A ver vamos,como diz o cego. Estamos a pouco mais de uma semana da prova dos nove. 

domingo, 12 de novembro de 2017

De cócoras...e dissimuladamente.


Pois é. Culpados são os outros. Sempre. Para variar. Nas indescritíveis tragédias dos incêndios de Junho e de Outubro, culpados terão sido todos os anteriores governos que não aprovaram a melhor reforma da floresta desde D. Dinis. Mas foi depois dessa aprovação que veio o inferno, porque um só diabo era pequeno demais para tanta incompetência. Quando os membros do Governo, de que deve ser destacada a figura emblemática do Senhor dos Assuntos Fiscais (ex) pela enorme atracção carismática e transbordante autenticidade, nenhum foi verdadeiramente culpado. Mas criou-se um Código de Conduta. Que não é lei. Mas é um Código de Conduta. Há 3 anos houve um surto de legionela, grave, com origem nas instalações de uma empresa privada em Vila Franca de Xira. A oposição gritou, esbracejou e pediu as demissões que todos sabem. Fez bem. As inspecções devem actuar, sejam privadas ou públicas as instalações que devem ser mantidas livres desse risco. Mas agora, um surto igualmente grave de legionela, com origem num hospital público - repito, porque nem eu acredito - no Hospital S. Francisco Xavier, alguém ouviu os costumeiros grupos de protesto dizer alguma coisa? Nada. Sabem porquê? Citando o melhor resumo: é que nós temos a melhor legionela do mundo. Ela aí está, para que dúvidas não haja. Da mesma forma, como se viu, "também tivemos a melhor Web Summit de sempre". Assim sendo, porque diabo não haveriam de ser autorizados a celebrar com uma jantarada no Panteão Nacional? Diz o rapaz Cosgrave, ou disse na jantarada, ufano e  exuberante pelo feito, que o ministro o adulou dizendo que era a primeira vez que se realizava um jantar na Panteão. Terá sido mais ou menos assim: - Veja bem Paddy, veja bem como nós gostamos de si e de toda a malta da web summit mai-las suas Tshirts. Por isso não nos deixe. Olhe que nós não somos a Irlanda. Nós somos gente amável e reconhecida. Vá lá festejar isso, como quer, no local de repouso dos nossos heróis. 
Não resisto a emitá-los com uma expressão de tr(u)mpa. Duas, vá lá: era expexctável, não era? Eles e nós somos bons - os melhores - e muito resilientes. 
Mas a história tinha de repetir-se, inevitavelmente. Com a indignação do PM pelo meio. Pois claro. Os culpados foram os outros, no caso, o autor do despacho que permite utilizar monumentos nacionais para eventos. Logo, ninguém autorizou a festança no Panteão. E se autorizou era porque o despacho o permitia. Se calhar, digo agora eu, até obrigava. Mas não. Parece que o despacho determina que quem decide, deva ponderar o tipo de evento de modo a preservar a dignidade devida a cada um dos monumentos aí referidos.  Mas isso pouco importa. A indignação do PM é contra o autor do despacho e por interpretação extensiva,  contra o governo a que pertencia o seu autor. Nunca, mas mesmo nunca contra o imbecil que autorizou a festança. Se outros se indignarem, bom, então regressamos ao costume: nomeia-se uma comissão, ficamos à espera do relatório e, se necessário for, os  anjos da guarda (leia-se PCP e BE) boicotam a divulgação dos resultados, como sabem fazer sempre que possam estar em perigo os padrinhos e afilhados. São as regras. As sacrossantas regras do nepotismo. E cá vamos, cantando e rindo, porque somos os maiores: ainda que estejamos de cócoras e dissimuladamente.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Catalunha


Tenho acompanhado com interesse e preocupação os acontecimentos na Catalunha. Confesso que a ideia que formei da actuação do Senhor Puigdemont e Cª é muito má. Pior. Todos os seus actos corporizam um indescritível populismo. Num momento em que o termo é tão utilizado, amiúde de forma pouco correcta e informada, fico atónito com a passividade com que aturam as birras do membros do govern depostos. Um blog não é espaço para teorizações. Populismo consubstancia-se na atitude de lideranças políticas, eleitas ou não, em que o chefe faz apelos directamente ao povo, eleitores em regra, desrespeitando e achincalhando mesmo as instituições intermédias da chamada democracia representativa. Ou seja, o populismo procura conquistar e manter o poder com o apoio directo das massas, ainda que contra as instituições que facultam o palco ou palcos aos populistas. Curioso. A crise generalizada da democracia representativa está na origem do surgimento e da multiplicação de populismos.  Como sabemos. No caso da Catalunha, o populismo a que temos assistido atinge uma despudorada demagogia. Todos os populismos se socorrem de argumentos demagógicos. O dos  consellers depostos roçam o patético, apesar de estarem notoriamente planeados há muito tempo, como resulta dos acontecimentos. Não resisto a citar, sem preocupação de rigor, duas opiniões que colhi ao acompanhar a crise.  Uma ouvi-a na televisão espanhola. Não me recordo do canal. O programa debatia a Catalunha. Um professor da Universidade de Barcelona, com grande rigor e serenidade, pronunciava-se exactamente sobre o absurdo das ideias "defendidas" pelo independentistas e o abismo que se abria para o povo catalão. A moderadora perguntava então: - sendo assim, como explica que haja tanta gente a apoiá-los? Sorrindo, o Professor rematava:-Também não entendo. A única explicação é a de que as pessoas gostam de ser enganadas. A outra opinião importante que retive, li-a no El Pais,  se não me falha a memória. É metafórica e parece-me ir à origem do problema. Dizia o autor: - há quarenta anos que os inquilinos de Moncloa pagam a renda aos baronetes das autonomias. De cedência em cedência, o Estado espanhol corre o risco de ser desmembrado.
O autor sabe bem, como expressamente diz no artigo, que a Espanha é um Estado que integra várias nações. Apesar de tudo, são bem mais importantes as semelhanças do que as diferenças, apesar destas serem relevantes e enriquecedoras. 
Claro que é concebível uma legitimidade revolucionária. Para que possa existir, há que fazer a revolução e substituir a ordem constitucional vigente. Ao empreender uma revolução, quem a promove tem de estar consciente de que pode perder. E se perder, também é evidente que terá de sofrer as consequências da ordem jurídica que não conseguiu substituir. No caso da Catalunha, é inegável que a reacção se conformou com as normas e procedimentos de um Estado de Direito. Aos revolucionários, para sermos simpáticos, têm sido garantidos os direitos que são garantidos a todos os outros cidadãos pelo Estado Espanhol. Talvez mais, pela notoriedade. Ao que me parece. A violência policial do 1º de Outubro foi ampliada e instrumentalizada pelos independentistas de acordo, de resto, com o plano traçado por eles próprios. A fuga do ex-president e outros consellers ( nem todos)após a aplicação do artº 155º da Constituição, parece-me de uma cobardia incompatível com quem fomenta um movimento revolucionário.  Por isso não o é nem pode ser. O "movimento" ou agitação social catalã tem muito poucas probabilidades de vingar. Política, económica e socialmente, ao que me parece. Um hipotético sucesso significaria a prazo ( curto) o desabar da União Europeia. Seria pior do que o Brexit. Como já foi analisado e perspectivado tendo em atenção os impulsos e até as circunstâncias em que se espaldam outras autonomias e quiçá rupturas por essa Europa fora. Consideramos, apesar de tudo, estas questões sobre um prisma democrático e pacífico. Porque ninguém na Europa terá esquecido os erros crassos do desmembramento da antiga Jugoslávia e das guerras que se seguiram. Será que a Europa institucional aprendeu verdadeiramente?
Veremos o desenvolvimento nos próximos capítulos.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Sem perdão


 Agora. Um pouco mais distante. No tempo. Mas não na memória. Perto, muito perto também na raiva. E na vergonha. Só há uma palavra, duas em boa verdade, para tanta incompetência. Para tanta negligência. Sem perdão. O meu País ardeu a 18 de Junho. Ardeu de novo a 15 de Outubro. A "élite" de merda que elegemos de tempos a tempos é incapaz de ver a realidade. Nega a verdade, ainda que flagrante. Nega o País. Nega-nos a todos. É incapaz de prever seja o que for. É incapaz de coordenar seja o que for. Incompetente e esquizofrénica, tudo depende do seu gang partidário. A este e só a este é preciso agradar. Criar o círculo esfomeado das sinecuras. E mantê-lo. Mantê-lo a todo o custo. O País interior, despovoado, abandonado à sua sorte, é uma abstracção para estes cucos. Terá razão a élite de merda. Esse País não dá votos. Ou dá poucos. E pode ser enganado. Pode ser manipulado. Na sua singeleza, é devorado pelos abutres. Consomem-lhe o corpo e chupam-lhe a alma, mesmo esturricada. De quando em vez, o apocalipse faz com que finjam uma lágrima. Como crocodilos. Para preservar recursos. Há coisas que eles sabem. Há coisas que dominam na perfeição. Sabem como tirar proveito pessoal das dificuldades burocráticas que criaram pouco antes com mestria invejável. Sabem como criar instrumentos para alimentar a sua ganância. Sabem como alimentar os padrinhos. E os afilhados. Sabem como enrolar as lianas de todos os nepotismos. Sabem chamar as atenções. E sabem criar manobras de diversão para desviar as atenções.  Sabem como queimar, enganar, manipular. E sabem que o mais importante é não ter pudor. Não ter vergonha. Enquanto queimam Portugal em lume brando. Por negligência? Por incompetência? O País continuará a arder de qualquer forma. Física e moralmente.